Live promovida pelo Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas celebra os 100 anos de nascimento de Bert Hellinger. Evento reúne o diretor de cinema, roteirista e montador, indicado ao Oscar por ‘Cidade de Deus’ e premiado em Cannes (‘A Árvore da Vida’), Daniel Rezende. Ele aceitou o desafio de adaptar a obra do escritor português Valter Hugo Mãe. “O impossível me dá energia. Fazer o que não sei me movimenta”, afirma. “Você não só trouxe a essência, mas a expandiu”, diz a presidente do CECS, médica e psicoterapeuta Dagmar Ramos. “O que mais me tocou no filme foi que, apesar de mostrar a construção de uma família pelo afeto, ele traz a ancestralidade como uma influência profunda na estrutura emocional dos personagens”, pontua atriz, escritora e diretora de Comunicação, Ingra Lyberato. Entre conceitos centrais discutidos estão a escuta como gesto fundador do humano, a ruptura de padrões patriarcais de masculinidade, e a arte como campo simbólico capaz de acessar conteúdos inconscientes e transgeracionais
Em homenagem aos 100 anos de nascimento de Bert Hellinger, o Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas (CECS) realizou no dia 16 de dezembro uma live especial com enfoque sistêmico sobre o filme ‘O Filho de Mil Homens’, sucesso da Netflix dirigido pelo aclamado cineasta brasileiro Daniel Rezende e protagonizado pelo ator Rodrigo Santoro.
Com o tema ‘O Filho de Mil Homens em uma visão sistêmica’, a live contou com a participação do diretor e roteirista Daniel Rezende, da médica, psicoterapeuta e presidente do CECS, Dagmar Ramos, da atriz, escritora e diretora de Comunicação da instituição, Ingra Lyberato. Juntos, eles fizeram uma reflexão profunda sobre o filme como espelho dos vínculos humanos.
A obra, inspirada no livro do escritor português Valter Hugo Mãe, acompanha a história de Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um pescador solitário em busca de pertencimento por meio da paternidade. Em sua trajetória, encontra personagens também à margem, e juntos formam uma família nada convencional. O enredo se transforma numa poderosa metáfora sobre amor, vínculos e reconciliação.
“Cada personagem carrega a pergunta silenciosa: ‘Qual é o meu lugar?’” A live buscou conectar a arte cinematográfica com os princípios das Constelações Familiares.
A produção de Daniel Rezende é descrita como uma Constelação de encontros, onde cada gesto desenha destinos e resgata histórias.
Para a presidente do CECS, Dagmar Ramos, a live foi um espaço para integrar arte, sensibilidade e consciência sistêmica: “Quando cada personagem encontra o próprio lugar, o amor deixa de ser falta e passa a ser força de reconciliação, capaz de reorganizar destinos e restaurar vínculos.”
Filosofia, poesia e vínculo sistêmico
Na abertura da live, Dagmar Ramos destacou as conexões entre o pensamento literário de Valter Hugo Mãe e os fundamentos das Constelações Familiares Sistêmicas desenvolvidas por Bert Hellinger.
Segundo ela, “aqui destacamos a filosofia, a mensagem, a poesia, a leitura do ser humano trazida por Valter Hugo Mãe, escritor português, e essa conexão com o trabalho que nós desenvolvemos por meio dos ensinamentos, das ordens do amor de Bert Hellinger e de seu método incrível das Constelações Sistêmicas”.
Para Dagmar, a convergência entre o conteúdo do filme e os princípios sistêmicos justifica a escolha da obra para o evento comemorativo. “Celebrar 100 anos de Bert Hellinger, falar sobre Valter Hugo Mãe e trazer aqui esse grande artista brasileiro, diretor e roteirista Daniel Rezende, faz todo o sentido”, afirmou.
Antes de iniciar a conversa com os convidados, Dagmar leu um trecho do livro ‘No Centro Sentimos Leveza’, de Bert Hellinger: “Ordens do Amor inspira-nos com humildade e nos comove ao nos fazer presenciar a veemência das forças do destino. Ao mesmo tempo, contudo, nos oferece uma saída, por levar-nos por caminhos que, às vezes, mudam os destinos considerados os mais problemáticos”.
Arte como espelho das forças do destino
Dagmar observou que o enredo de ‘O Filho de Mil Homens’ ilustra com precisão os movimentos de reconciliação e cura que as Constelações Familiares Sistêmicas propõem. Para ela, o filme espelha personagens que carregam silenciosamente a pergunta “qual é o meu lugar?”, e é nessa busca que se revelam as forças do pertencimento e da reorganização amorosa. “Quem assistiu ao filme e leu o livro sabe que é exatamente disso que se trata”, afirmou.
A live marcou um momento de convergência entre arte, literatura e pensamento sistêmico, ao destacar o legado de Bert Hellinger e sua contribuição para a compreensão profunda dos vínculos humanos.
Encontro entre arte e experiência pessoal
Em sua primeira manifestação durante a live, a atriz, escritora e diretora de Comunicação do CECS, Ingra Lyberato, expressou emoção diante da ocasião e da presença dos convidados.
Ela destacou a importância do reencontro com o cineasta Daniel Rezende e relembrou a circunstância marcante em que ambos se conheceram, poucas semanas antes do início da pandemia de Covid-19, um período de incertezas e transformações coletivas.
Ao abordar o conteúdo do filme ‘O Filho de Mil Homens’, Ingra Lyberato pontuou: “O que mais me tocou no filme foi que, apesar de mostrar a construção de uma família pelo afeto, ele traz a ancestralidade como uma influência profunda na estrutura emocional dos personagens”.
Cinema, vínculo e escuta coletiva
Ao iniciar sua participação na live promovida pelo Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas (CECS), o diretor e roteirista Daniel Rezende agradeceu o convite e expressou entusiasmo diante da oportunidade de compartilhar, em diálogo com o público, aspectos da obra ‘O Filho de Mil Homens’.
O cineasta, responsável pela adaptação do romance de Valter Hugo Mãe, destacou o caráter especial do reencontro com Ingra Lyberato, com quem vivenciou, segundo ele, um momento significativo antes do início da pandemia.
Rezende saudou o público e chamou atenção para o expressivo número de participantes conectados à transmissão. Segundo ele, reunir tantas pessoas em uma noite de terça-feira, com interesse por uma conversa que entrelaça arte e perspectiva sistêmica, revela a potência do tema.
“Estamos nos reencontrando aqui para falar deste filme. É muito especial ver que, numa noite como esta, temos mais 200 pessoas reunidas para ouvir e participar (durante a live, o número de participantes chegou a 270). Isso me deixa muito feliz”, afirmou.
Rezende definiu o tema da live como “muito legal de falar”, expressão que remete à leveza com que costuma abordar assuntos de densidade emocional. Ao referir-se ao próprio filme, classificou-o como uma obra bela, feita com sensibilidade, e destacou que discutir seus significados em uma perspectiva ampliada é uma experiência valiosa.
O tom acolhedor e reflexivo de sua intervenção inicial marcou o início de uma conversa que, ao longo da live, articularia cinema, afetividade e Constelações Familiares Sistêmicas em torno do eixo comum da busca por pertencimento.
Literatura, cinema e o humano profundo
Na sequência da live, Dagmar Ramos retomou a palavra para compartilhar sua trajetória de leitura da obra do escritor português Valter Hugo Mãe, autor do romance ‘O Filho de Mil Homens’. Relatou que há anos acompanha e lê os livros do autor. Segundo ela, desde os primeiros contatos com a escrita de Valter, percebeu na densidade de sua prosa uma vocação natural para o cinema.
“Sempre que lia os livros, pensava: isso daria um belíssimo roteiro cinematográfico”, afirmou. Chegou a comentar essa percepção em encontros com profissionais da dramaturgia.
Dagmar mencionou, entre esses diálogos, uma conversa com a roteirista turca Nuran Evren Şit, que veio ao Brasil para participar de três eventos que ela e Ingra Lyberato organizaram com o apoio institucional do CECS.
A autora da série ‘Another Self’ — traduzida no Brasil como ‘Uma Nova Mulher’ — foi apresentada ao público brasileiro por seu trabalho diretamente associado às Constelações Familiares.
Dagmar contou que, durante uma entrevista conjunta, sugeriu a Nuran que conhecesse a obra de Valter Hugo Mãe, ao reforçar que diversos de seus livros poderiam resultar em adaptações cinematográficas notáveis.
A menção revela não apenas o apreço estético da presidente do CECS pela obra do autor português, mas também uma tentativa de estabelecer pontes entre linguagens — literatura, cinema e Constelações — como formas complementares de acessar o humano em profundidade.
Ao saber da decisão de Daniel Rezende no sentido de adaptar justamente ‘O Filho de Mil Homens’, Dagmar descreveu um sentimento de comoção. Classificou a escolha como um gesto sensível e sintonizado com os fundamentos do trabalho desenvolvido pelo CECS.
“Fiquei muito emocionada quando soube que você havia escolhido esse livro lindo e maravilhoso. Pensei que seria a oportunidade de trazer para o cinema esse conteúdo com o qual lidamos diariamente, ao integrar a filosofia e os ensinamentos de Bert Hellinger aos nossos atendimentos e pesquisas”, declarou.
Ao refletir sobre a densidade simbólica do autor português, Dagmar observou que Valter Hugo Mãe acessa com precisão a complexidade do ser humano, ao contemplar tanto os aspectos sombrios quanto os luminosos da existência.
Em sua leitura, porém, essa incursão nunca se dissocia de uma orientação amorosa: “Ele olha para o lado sombra e para o lado luz, mas traz luz a tudo isso. Compreende a essência amorosa que funda o humano. Como dizem muitos autores, o amor é o que funda o humano. A obra de Valter Hugo Mãe é um presente para a humanidade, sobretudo nestes tempos.”
Cinema como expansão da escuta amorosa
Ao comentar a adaptação realizada por Daniel Rezende, Dagmar não hesitou em classificá-la como uma das mais belas obras cinematográficas que já viu.
Segundo ela, o diretor não apenas preservou a essência da obra original, mas expandiu sua potência simbólica.
“Você não só trouxe a essência, mas a expandiu. Trouxe um grito que estava ali e que não estava escrito, mas estava presente”, afirmou, ao reconhecer a delicadeza do trabalho de direção como um gesto de escuta profunda daquilo que habita os interstícios do texto literário.
Nos 100 anos de nascimento de Bert Hellinger, ela lembra que o Brasil abriga atualmente um grande coletivo de consteladores e que muitos deles têm manifestado, nas redes sociais, uma conexão imediata entre o filme e os fundamentos das Constelações Familiares Sistêmicas.
“Os comentários no Instagram sobre o filme são inúmeros, são milhares. Muitos consteladores identificaram essa ponte. Por isso a ideia de trazê-lo aqui, por isso, desde já, o nosso profundo agradecimento”, pontuou.
Afeto, pertencimento e linhagens invisíveis
Em nova intervenção durante a live, a atriz, escritora e diretora de Comunicação do CECS, Ingra Lyberato, destacou que a obra aborda, com delicadeza, aspectos profundos da natureza humana, dos afetos que marcam os vínculos entre as pessoas.
“Esse filme fala do humano, da natureza humana e dos afetos”, afirmou.
Ao fazer o elo entre a narrativa do filme e os fundamentos das Constelações Familiares Sistêmicas, Ingra trouxe à tona uma das distinções centrais da abordagem: a relação entre origem biológica e vínculos afetivos construídos.
Lembrou que, sob a perspectiva sistêmica, o pai e a mãe ocupam lugar de origem, de raiz da vida, mas que há outras formas legítimas de pertencimento que emergem da força dos afetos e da busca por conexão.
Nesse sentido, reconheceu no filme a representação de uma família fundada não por laços sanguíneos, mas por encontros existenciais capazes de gerar solidez emocional.
“Esse filme fala de uma família construída pelo afeto, pela busca desse lugar de pertencimento. E quando essas pessoas se encontram, há uma solidez comovente, uma conexão profunda, de coração e de alma”, destacou.
A atriz apontou ainda que, mesmo em uma estrutura familiar formada por escolhas e não por herança direta, a presença da ancestralidade permanece ativa.
Ela ressaltou a riqueza de visões que a conversa poderia trazer, inclusive por ela mesma não ter lido o livro original. Afirmou que essa condição lhe permite trazer uma leitura do filme mais direta, vinda exclusivamente da experiência cinematográfica.
“Falei para a Dagmar que seria bom ter alguém que não leu o livro. São dois caminhos que se encontram: o da ancestralidade e o da família construída, cultivada pelo afeto, pelo encontro de corações que se buscam e se encontram”, pontuou.
A força literária e o encontro com o cinema
O diretor Daniel Rezende narrou o percurso que o levou à adaptação cinematográfica de ‘O Filho de Mil Homens’, romance do escritor português Valter Hugo Mãe.
O cineasta definiu a obra como um dos livros mais belos que já leu e relatou ter sido arrebatado ainda no primeiro capítulo, especialmente pela forma como o autor apresenta o personagem Crisóstomo.
Já havia lido ‘O paraíso são os outros’, texto breve que recebeu de presente. Durante a pandemia, pouco após seu primeiro encontro com Ingra Lyberato, recebeu de uma amiga — figurinista com quem já havia trabalhado — a indicação direta do romance. “Ela fez como a Dagmar. Pegou o livro e disse: ‘Você precisa ler isso aqui.’”
Ao iniciar a leitura, percebeu que estava diante de uma obra literária que operava num nível de profundidade raro.
Disse que o livro possui uma estrutura que, embora não linear, se organiza em histórias paralelas.
Destacou a fluidez da escrita de Valter Hugo Mãe, que mistura descrição, fluxo de pensamento, filosofia e sensorialidade em uma mesma frase.
Mais do que a técnica, o que o impressionou foi o modo como o autor trata os personagens, de forma humanizada, poética e sem artifícios: “Fiquei completamente arrebatado não só pelas histórias, mas pela forma como ele escreve”.
Família, condição humana e desconstrução
Rezende afirmou que a obra o tocou profundamente porque reconheceu, nas dores dos personagens, aspectos universais da condição humana. Mesmo sem ter vivido o que viveram, sentiu que conhecia cada um deles: “São dores que atravessam o tempo. O mundo muda, mas há questões que permanecem simples e ainda assim inalcançáveis.”
Enfatizou o impacto causado pela figura do Crisóstomo, que representa um tipo de masculino raramente retratado na arte. Segundo o diretor, trata-se de uma masculinidade sensível, generosa e aberta, que contrasta com modelos tradicionais moldados por rigidez emocional e distanciamento.
Compartilhou que vinha, desde 2016, em um processo pessoal de desconstrução da própria masculinidade, ao buscar compreender o mundo sob novas lentes.
Declarou que flerta com o ceticismo e que não se vincula a visões religiosas, mas que se interessa por tudo o que envolve o humano nas relações. Essa busca atravessou a escolha do projeto.
Após anos a dirigir obras voltadas ao público infantojuvenil, buscava uma narrativa ancorada em afetos mais complexos. Encontrou em ‘O Filho de Mil Homens’: “Os personagens do livro não encontram seu lugar no mundo. Mas, ao se reconhecerem, formam uma nova família fundada na escuta, na empatia e na alteridade”.
Visão cinematográfica do afeto
O diretor relatou que, ao longo da leitura, sentia que cada página fortalecia seu desejo de transformar aquela história em filme. A partir dessa convicção, criou um processo de produção baseado no conceito de faísca: a necessidade de que uma emoção inicial, sentida por ele, se propagasse por toda a equipe criativa até alcançar o público.
“Essa faísca tem que sair de dentro, contaminar quem vai contar a história comigo, e depois sair da tela para tocar as pessoas”, disse. Ressaltou que a cena em que faíscas saem do umbigo de Crisóstomo não é gratuita, mas uma imagem-síntese dessa força transformadora.
Ao mencionar os desafios da adaptação, afirmou que muitas pessoas consideraram o livro inadaptável. A estrutura fragmentada, a linguagem lírica e a ausência de uma trama tradicional dificultariam a transposição para o audiovisual.
Reconheceu a complexidade, mas disse que se sente estimulado por desafios considerados inviáveis: “O impossível me dá energia. Fazer o que eu sei não me interessa. Fazer o que não sei me movimenta.” A partir desse impulso, decidiu levar adiante o projeto, convencido de que era possível transpor para a linguagem do cinema a delicadeza do texto literário.
Relações humanas e ancestralidade
Rezende retomou o tema da ancestralidade. Segundo ele, embora o livro já contenha essa camada simbólica, o filme ampliou essa dimensão, talvez de forma inconsciente.
Explicou que a ancestralidade atravessa as relações entre os personagens e está presente no modo como cada um carrega, mesmo sem saber, os ecos dos antepassados.
Declarou que a escolha de dar ênfase a esse aspecto surgiu da percepção de que, ao criar novos vínculos, as personagens não anulam a origem, mas constroem um pertencimento que inclui também o passado: “As relações humanas me moveram. E a ancestralidade está lá, inerente. Eu só tentei escutar isso e transformar em imagem.”
Com esse percurso, Daniel Rezende revelou não apenas a gênese de sua adaptação cinematográfica, mas também a confluência entre arte, processo pessoal e transformação coletiva — pilares que sustentam o diálogo entre o filme e os fundamentos das Constelações Familiares Sistêmicas.
A potência da fidelidade entre linguagens
Dagmar Ramos retomou a palavra para estabelecer um elo direto entre as reflexões de Daniel Rezende e a literatura de Valter Hugo Mãe.
Ela leu um trecho de ‘O Filho de Mil Homens’: “Quem tanto pede o que lhe pertence, assim o mundo convence.”
Para ela, essa frase expressa com precisão a experiência do diretor diante da obra: “Foi o que você fez, não é? Você foi tomado por essa certeza de que ali tinha algo belíssimo e que poderia, sim, passar para outra arte sem perder a sua essência.”
A presidente do CECS descreveu a transposição do texto literário para o cinema como um gesto de confiança no valor simbólico da narrativa e na potência da linguagem audiovisual.
Dagmar compartilhou ainda a vivência da primeira exibição do filme com um grupo de consteladores de Goiânia. “Nós choramos uma grande parte do filme”, relatou. Desde então, assistiu à obra outras duas vezes e passou a recomendá-la com entusiasmo: “Sou daquelas que fica a apontar o dedo e a dizer: você tem que assistir. Inclusive aqui no grupo.”
A recepção afetiva e a presença coletiva
Daniel Rezende acolheu a fala com bom humor e expressou satisfação com o envolvimento afetivo do público. Incentivou as sessões coletivas, mas fez uma observação prática: “Pode assistir junto, gente, o pessoal assiste junto, mas depois cada um vai para sua casa e dá o play na Netflix de cada conta. Porque tem que contabilizar muitos plays.” A fala descontraída manteve o tom caloroso da conversa, ao mesmo tempo em que destacou a importância de valorizar a circulação digital da obra.
O símbolo, o sonho e o inconsciente
Na sequência, Ingra Lyberato introduziu uma nova camada de análise ao compartilhar que, após assistir ao filme, sonhou com ele por noites consecutivas. Declarou-se impressionada com a força simbólica das imagens e ressaltou a maneira como o conteúdo da obra se enraizou em seu universo onírico.
Relacionou a experiência à prática da consciência sistêmica, à escuta da ancestralidade e ao contato com os conteúdos inconscientes que habitam o sujeito: “É abertura do coração, da alma, da consciência para entender que a nossa ancestralidade nos entrega muitas heranças, positivas e negativas.”
Ingra lembrou que, desde a infância, sua mãe a treinou para recordar os sonhos — prática associada ao estudo da psicologia analítica do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Jung. Mais tarde, seu envolvimento com o xamanismo intensificou essa relação com o mundo simbólico. A atriz destacou que o filme contém cenas diretamente conectadas a esse campo imagético, como a profundidade do mar, a concha e as figuras que nadam: “Ali é um universo simbólico riquíssimo que me tocou profundamente.”
Ao refletir sobre a experiência, afirmou que o impacto do filme não se encerra na superfície emocional da narrativa: “Eu me deliciei assistindo, me identifiquei, me emocionei. Mas o filme ficou comigo. Sonhei com ele porque tocou em pontos inconscientes e sensíveis.”
Finalizou ao apontar para o diálogo entre arte e inconsciente.
Refletiu e indagou: “A arte é expressão do inconsciente também. Muitos terapeutas se utilizaram da arte para acessar esse mundo. Por isso, gostaria de te ouvir, Daniel, sobre esse universo onírico, simbólico, arquetípico que está ali retratado. Isso está no filme de forma consciente?”
A pergunta de Ingra abriu espaço para uma nova inflexão na conversa, ao aproximar o campo simbólico da arte cinematográfica das camadas profundas exploradas pelas Constelações Familiares Sistêmicas.
A permanência da obra além do tempo de tela
Daniel Rezende expressou um dos maiores elogios que considera possível receber sobre um filme: o fato de a obra permanecer no espectador após a sessão.
Para ele, essa permanência marca a diferença entre um filme que se encerra em si e aquele que continua vivo no campo simbólico e emocional do público: “Não tem nada que eu goste mais de ouvir do que a frase ‘seu filme ficou comigo’. Porque um filme que dura duas horas termina ali. Mas os que ficam duram uma vida inteira, duram gerações.”
Rezende afirmou acreditar que tanto o livro de Valter Hugo Mãe quanto a adaptação cinematográfica possuem esse potencial de permanência. Observou, no entanto, que algumas pessoas enfrentam dificuldades iniciais com a linguagem do autor português. Reconheceu isso sem julgamento, ao tratar como exceção: “Algumas pessoas dizem que não bateu, que pararam de ler. Acontece, mas é raro.”
Ao comentar a fala de Ingra Lyberato, que revelou ter sonhado repetidamente com o filme, o diretor reagiu com entusiasmo. Para ele, o fato de a obra ter entrado nos sonhos é um sinal inequívoco de que ultrapassou os limites da narrativa objetiva: “Ele não ficou só quando você voltou para casa e abriu a geladeira. Ele foi para o seu sonho.”
Da poesia escrita à linguagem visual
Rezende retomou a estrutura literária do romance para explicar os desafios da adaptação. Disse que o livro é fortemente marcado por um fluxo de pensamento contínuo e que a poesia reside na maneira como Valter Hugo Mãe organiza palavras de modo inesperado e belo: “O maior desafio era me desprender da poesia da palavra e transformá-la em poesia visual.”
Reconheceu que manteve alguns momentos de narração em voz off — a cargo da atriz Zezé Motta — como forma de preservar a vibração original do texto.
A primeira fala da narração, inclusive, corresponde à citação lida anteriormente por Dagmar Ramos: “Quem tanto pede o que lhe pertence, assim o mundo convence.” Segundo o diretor, não foi por acaso que essa frase foi escolhida para abrir o filme.
Ele então explicou que, para manter a profundidade do texto sem depender do verbal, precisou se apoiar em símbolos. Declarou que estudou simbologia e consultou especialistas para construir uma linguagem imagética coerente com os temas do filme.
Um dos elementos que mais o orientou foi a luz laranja, associada à energia da Kundalini e à ativação do primeiro chakra, o da base. Essa cor aparece em momentos-chave da narrativa, como na concha que brilha em tons alaranjados no fundo do mar — uma criação exclusivamente cinematográfica, ausente no livro.
Do símbolo à narrativa ancestral
Rezende comentou ainda outras escolhas visuais que inseriu no filme a partir de elementos simbólicos. A cena em que Crisóstomo nada entre cadeados, gaiolas e âncoras representa, segundo ele, obstáculos invisíveis e condicionamentos que aprisionam.
A partir dessa metáfora, expandiu o uso de símbolos em outros núcleos da trama: “O pai da Isaura fabrica cadeados. A mãe cria coelhos em gaiolas. A casa da Isaura parece uma gaiola. A pintura da direção de arte reforça isso.”
Mencionou também a presença da carta “A Estrela” do Tarot, inserida por sugestão de sua companheira, Cris Nunes, astróloga e taróloga, que leu o livro ao seu lado. A carta representa o sonho, o ideal, a busca de algo maior — um símbolo que, para ele, conecta-se diretamente à jornada das personagens.
A construção do protagonista no cinema
Ao falar sobre a diferença entre o livro e o filme, Daniel Rezende abordou uma mudança central: no romance, o protagonista Crisóstomo não tem passado conhecido. Todos os demais personagens possuem histórias anteriores que os explicam. Ele não. Essa ausência de origem gerava, no processo de roteiro, uma dificuldade para o diretor, especialmente ao imaginar Rodrigo Santoro no papel: “Todos os outros tinham traumas, histórias. E o Crisóstomo parecia um homem branco a dizer as coisas mais lindas do mundo, sem saber de onde vinham.”
Para evitar essa armadilha narrativa, o diretor decidiu criar uma origem para o personagem. No filme, Crisóstomo também carrega marcas de exclusão. Foi criado fora dos códigos sociais da vila onde vive. Essa escolha justificou a sensibilidade, escuta, ausência de dureza: “Ele não foi codificado com os códigos da sociedade. Por isso, ele é capaz de amar e escutar.”
Essa construção também levou Rezende a reduzir radicalmente os diálogos do personagem. Investiu no silêncio, nos olhares e, sobretudo, na escuta como marca essencial do protagonista: “O Crisóstomo fala pouco. Ele escuta. É um homem que escuta.”
A partir dessa decisão, intensificou o uso de códigos visuais para comunicar o desenvolvimento da narrativa. Um exemplo citado foi o varal com uma única camisa, que depois passa a ter uma camisa e uma camiseta infantil — símbolo sutil, mas eficaz da formação da nova família.
A imagem icônica da ancestralidade
Daniel Rezende mencionou aquela que se tornaria, segundo ele, a imagem icônica do filme: a cena em que a ancestralidade inteira aparece atrás de Crisóstomo. Para o diretor, essa imagem cristaliza o elo entre presente e passado, entre o visível e o invisível, entre a experiência do sujeito e as linhagens que o constituem.
Em seu entendimento, foi ali que se tornou possível traduzir cinematograficamente aquilo que, na literatura e nas Constelações Familiares Sistêmicas, já se reconhece como essencial: o pertencimento que se funda na escuta, na memória e na presença dos que vieram antes.
A leitura que se expande na imagem
Ao retomar sua fala, Dagmar Ramos compartilhou sua própria trajetória de leitura da obra ‘O Filho de Mil Homens’, ao revelar uma experiência que se transformou após o contato com o filme dirigido por Daniel Rezende.
Contou que leu o romance duas vezes, discutiu com alunos e pacientes, e recomendou sua leitura a todos ao redor. No entanto, após assistir ao filme, sentiu necessidade imediata de reler o livro. Ao fazê-lo, percebeu algo que, segundo suas palavras, talvez nem o próprio diretor tenha plena consciência: o filme, ao invés de interpretar ou deslocar o livro, aprofunda sua essência: “Você compreende o livro de uma forma mais profunda. E não há nenhuma desconexão entre filme e livro. É impressionante.”
Dagmar relatou também ter acompanhado entrevistas de Valter Hugo Mãe nas quais o autor português comenta seu envolvimento emocional com a adaptação. Segundo ela, o escritor revelou receio inicial diante da possibilidade de que o filme se sobrepusesse ao livro, temor que reconheceu com humildade: “Ele dizia com simplicidade que tinha medo de que o filme fosse muito maior do que o livro e que as pessoas esquecessem o livro. Mas ninguém esquece Valter Hugo Mãe. Nunca.”
Aprofundamento e escuta como gesto de fidelidade
Para Dagmar, a adaptação feita por Daniel Rezende não apenas preserva o livro como o expande — em profundidade simbólica, densidade afetiva e coerência poética: “Você não traiu nada do livro. Você aprofundou. Você entrou fundo. Como numa Constelação.”
Comparou o gesto de adaptação ao processo terapêutico que ocorre nas Constelações Familiares Sistêmicas, no qual não há previsibilidade nem controle, mas sim entrega e escuta radical: “Você abre uma Constelação e o que há é uma conexão profunda com quem está ali. Um vínculo de amor sem julgamento. De escuta.”
Definiu a Constelação como um campo de escuta — mas não qualquer escuta: uma escuta que não parte de certezas, mas da disposição de não saber.
A escuta verdadeira exige entrega, suspensão de julgamento e humildade diante do que se revela: “Se você acha que sabe, você vai errar. Vai fazer uma péssima Constelação. Você precisa entrar sabendo que não sabe muito. E que aquilo vai se revelando ali.”
Segundo Dagmar, esse foi exatamente o caminho trilhado por Daniel Rezende no processo de adaptação: um mergulho sensível, não programático, na essência da narrativa. Afirmou que a compreensão oferecida pelo filme reverbera em quem já leu o livro, de modo que não é mais possível dissociar uma obra da outra: “Não dá mais para pensar que existe o livro separado do filme. Há uma conexão profunda entre eles.”
A imagem do grito e a presença do não dito
Dagmar compartilhou também uma reação emocional específica ao filme: a cena do grito de Crisóstomo. Ao vê-la, sentiu estranhamento. Não recordava se tal momento estava no livro. Relatou a conversa com a filha Tereza, psicóloga, que também havia lido o livro várias vezes.
“Perguntei: Tereza, esse grito está no livro? Ou foi só no filme?” A filha respondeu que não. Ainda assim, Dagmar insistiu: “Parece que li esse grito. Ou talvez ele estivesse lá de outra forma.”
Para ela, essa cena sintetiza a operação simbólica realizada pelo filme — captar aquilo que está latente, mas não explícito, e tornar visível o que já existia em potência na narrativa literária. Finalizou com emoção: “Foi lindo. Muito obrigada.”
A expressão do corpo e o grito que liberta
Em nova intervenção na live, Ingra Lyberato sugeriu a retomada da experiência vivida com Daniel Rezende em um contexto anterior à produção do filme, ao relacionar diretamente o momento do grito presente na narrativa cinematográfica à prática terapêutica que conduz. Ingra é facilitadora da TSFI – Terapia Sistêmica Fenomenológica Integrativa –, abordagem que integra fundamentos das Constelações Familiares com elementos da traumaterapia e da escuta somática.
Relatou que, em sessões, é comum que o participante manifeste o desejo de gritar, sentimento frequentemente associado à liberação de traumas: “A gente fala: grita. Isso precisa sair do corpo. O corpo guarda todas as memórias, pessoais e ancestrais.”
Para Ingra, esse grito tem uma função mais profunda do que uma descarga emocional. Trata-se de um movimento de vazão, reorganização e reintegração interna, que pode surgir como resposta corporal à escuta e à conexão estabelecida no campo sistêmico.
A imagem do grito no filme, segundo ela, remete diretamente a esse gesto terapêutico. “É algo que já conhecemos em contextos de cura. E quando vi essa cena, liguei imediatamente ao que vivemos nas Constelações e na traumaterapia.”
O gesto do abraço como reparação simbólica
A atriz também destacou a simbologia do abraço que aparece na sequência final do filme. Associou essa cena ao momento de encerramento típico das Constelações, que costuma ser acompanhado por gestos de reconciliação e pertencimento.
Em sua prática, denomina esse gesto de “Abraços que curam”. Explicou que, ao orientar os participantes a se entregarem ao abraço, costuma dizer: “Sente o seu coração abrindo. Sente essa conexão de coração para coração.”
Segundo Ingra, trata-se de um momento profundamente restaurador, em que feridas emocionais recuam e vínculos se refazem por meio da presença afetiva.
O filme, ao representar esse tipo de abraço, tocou um ponto que ela considera essencial na experiência sistêmica: “É o coração que sofreu, que se armou, que se partiu. E que ali, naquele abraço, se cura. Se abre para uma nova relação.”
A escuta como condição do reconhecimento
Ingra finalizou a fala ao retomae um dos princípios mais citados nas Constelações Familiares Sistêmicas: o reconhecimento do outro por meio da escuta.
Evocou a frase “Eu vejo você”, expressão que, para ela, só pode ser pronunciada com verdade quando há disponibilidade afetiva real.
“Esse ‘eu vejo você’ é porque eu te escuto, é porque meu coração se abriu. Não tem como ver o outro se a escuta e o coração não se abrirem”, explicou
A interpretação que se multiplica no encontro com o outro
Ao retomar a palavra, Daniel Rezende fez questão de ressaltar um aspecto essencial da criação cinematográfica: a natureza coletiva da arte. Disse que, embora esteja à frente da direção, o filme é resultado do trabalho de muitas pessoas, um processo que funciona como uma grande família criativa.
Explicou também por que acredita que o filme e o livro ‘O Filho de Mil Homens’ não competem entre si. Para ele, as duas obras se complementam: “Eles não competem. Eles se completam.”
Ao adaptar o romance de Valter Hugo Mãe, afirmou ter feito uma leitura pessoal do texto, que se tornou, por sua vez, objeto de novas interpretações por parte de cada espectador: “A beleza da arte está nisso. Cada um lê e interpreta a partir da sua experiência.”
Ressaltou que os símbolos e emoções do filme têm força universal, mas a forma como são assimilados é sempre subjetiva.
Admitiu que não conhece profundamente as Constelações Familiares Sistêmicas antes de realizar o projeto, embora algumas pessoas tenham mencionado afinidades entre a narrativa do filme e a abordagem. Por curiosidade e interesse, decidiu participar de uma vivência. Relatou que assistiu à Constelação de outra pessoa e fez a sua: “Foi uma experiência interessantíssima.”
As raízes tântricas da experiência artística
Apesar desse contato pontual com as Constelações, Rezende afirmou que a matriz principal de sua busca espiritual e estética está no Tantra, tradição filosófica à qual tem se dedicado há anos. Relatou ter participado de diversos retiros e vivências com diferentes mestres, entre eles Carol Teixeira, com quem teve experiências marcantes e cuja metodologia influenciou diretamente a construção do filme. Disse ter conhecido Ingra Lyberato justamente em um desses retiros tântricos.
Ressaltou que os princípios do Tantra foram levados para o set de filmagem e utilizados, inclusive, na preparação dos atores.
A sutileza do toque, a respiração, o silêncio e a escuta do corpo foram elementos fundamentais na criação da linguagem do filme: “No fundo, o Tantra é isso: como você se conecta com o seu corpo, com o universo e com o outro. É presença. É verdade.”
O grito como limiar entre o antes e o depois
Em seguida, o diretor compartilhou uma vivência pessoal decisiva. Relatou que, em um dos primeiros retiros que fez com Carol Teixeira, durante uma meditação ativa, sentiu uma dor intensa no peito.
A facilitadora percebeu o bloqueio e aproximou-se. Colocou a mão em seu tórax e o encorajou: “Dá o grito mais alto que você puder.” Obedeceu. Gritou com toda a força: “Eu era um animal. Eu era um dinossauro. Era a junção de todos os seres vivos.”
Depois desse momento, afirmou ter certeza de que sua vida se dividiu entre antes e depois daquele grito: “Eu como artista, como pessoa, como homem, como pai, como parceiro, como amigo — sou outro depois daquele grito.”
Foi essa experiência visceral que o levou a criar a cena do grito no filme. No romance, Crisóstomo se comunica verbalmente com Isaura e diz frases de extrema beleza. No roteiro, isso não funcionava: “Quando ele falava, parecia um grande chavequeiro.”
A solução narrativa foi substituir a fala pelo gesto, pelo silêncio, pelo grito. Primeiro, Crisóstomo grita sozinho na praia. Depois, pede que Isaura também grite. Não oferece explicações. Apenas pergunta: “Ajudou?”
Segundo Rezende, esse momento traduz a escuta verdadeira: “Ele quer saber se ela está melhor. Ele a escuta. Ninguém nunca a escutou antes.”
O corpo como lugar de verdade e presença
O diretor revelou que essa cena se tornou a mais pessoal de todo o filme. Narrada com grande emoção, contou que a gravação ocorreu logo na primeira diária do ator Johnny Massaro.
Durante a terceira tomada da sequência, começou a chorar de forma incontrolável. Precisou interromper as filmagens, foi acolhido pela equipe e demorou a se recompor. Ao olhar ao redor, percebeu que outras pessoas do set também estavam profundamente tocadas. “Eu disse: se isso está acontecendo aqui, é porque há verdade no que estamos filmando.”
Para Daniel Rezende, o que o filme oferece — e o que o aproxima de tantos profissionais da área terapêutica — é precisamente essa conexão com a verdade: “A sociedade não nos ensina a estar presentes. Nos ensina a adaptar o que sentimos aos moldes sociais. Isso não é verdade.”
Afirmou que, ao contrário, o filme foi feito com verdade e presença, fundamentos que reconhece no Tantra e que, segundo ele, fazem com que a obra ressoe com terapeutas, consteladores, psicólogos e pessoas que atuam com escuta profunda: “O filme se conecta porque é isso que ele tem: verdade e presença.”
O filme como sonho coletivo que desafiou o algoritmo
Rezende passou a comentar o percurso de realização do filme ‘O Filho de Mil Homens’. Enfatizou o caráter coletivo do projeto, que descreveu como um “sonho compartilhado por muitas pessoas”. Disse que tudo começou quando produtores leram o livro de Valter Hugo Mãe e adquiriram os direitos. Em seguida, ele próprio leu a obra e decidiu que queria dirigi-la: “Falei: quero fazer esse filme.”
Aos poucos, membros da equipe se integraram ao projeto e passaram a sonhar junto com ele: “Muitas pessoas da equipe entraram e sonharam com esse filme.”
Ressaltou o caráter improvável da presença da obra no catálogo da Netflix, uma plataforma guiada por algoritmos que favorecem narrativas mais velozes e padronizadas: “Esse filme vai na contramão do algoritmo.”
Afirmou que se trata de uma obra marcada pelo silêncio e por um ritmo mais lento, pouco comum na lógica dominante da plataforma: “O fato de ele existir já revela uma força muito grande.”
Finalizou ao reconhecer o vínculo que o público estabeleceu com o filme: “É um sonho sonhado por quem assiste também.” Disse que muitas pessoas se identificam com os personagens e se enxergam na história: “Eu só posso ficar muito feliz.”
O campo mórfico e a presença transformadora do silêncio
Ao comentar a fala anterior de Daniel Rezende, a presidente do CECS, Dagmar Ramos, destacou a potência invisível que se expressa na conexão entre o filme e o público. Para ela, há um nome para isso: “Campo Mórfico”.
Afirmou que ‘O Filho de Mil Homens’ já alcança ampla repercussão e ainda deve crescer muito mais.
Em sua avaliação, a obra chega num tempo em que a sociedade precisa de silêncio, presença e escuta — elementos que, segundo ela, o filme entrega com profundidade. Mencionou, emocionada, a cena em que Crisóstomo pergunta a Isaura se o grito a ajudou. “Foi a hora que eu chorei. Aquilo foi lindo.”
A linguagem do respeito como expressão do amor
Dagmar chamou atenção para outro momento significativo da narrativa. Trata-se da cena em que Isaura escreve em seu diário e é surpreendida por Crisóstomo.
Acostumada a ser invadida e desautorizada por figuras autoritárias, como a mãe e o pai, Isaura reage com susto ao perceber a presença dele. Diante do gesto impulsivo da jovem, Crisóstomo recua. Em seguida, pede desculpas com delicadeza. Isaura lhe pergunta: “O amor espera ou estraga tudo?”, ele responde: “Não sei. Eu iria gostar de ler o que você está escrevendo.”
Segundo Dagmar, essa frase representa uma das expressões mais profundas de amor que se pode ouvir. “Você quer uma frase de amor maior do que isso?”
Observou que o impacto da fala transforma Isaura. Primeiro ela se assusta, depois abre um sorriso. “Foi como um grito”, disse. Ela destacou que o sorriso da personagem cresce aos poucos, até revelar um novo estado interno: o da abertura confiante diante de um outro que respeita sua autonomia.
O masculino que rompe com o padrão patriarcal
Ao retomar a palavra, o diretor Daniel Rezende refletiu sobre cenas-chave do filme que, segundo ele, não existem no livro original. Explicou que partiu de uma interpretação sensível da obra para criar um personagem que rompesse com os códigos tradicionais do masculino.
“O patriarcado ensina ao homem que ele precisa vencer, competir, conquistar, saber tudo, nunca demonstrar fragilidade ou vulnerabilidade”, pontuou.
No entanto, Crisóstomo age na contramão dessa lógica. A cena em que ele diz “eu não sei, mas gostaria de ler o que você está escrevendo” exemplifica esse novo modelo de masculinidade. “Ele não apenas admite que não sabe, mas escuta.”
Rezende mencionou o desejo de oferecer uma nova referência de homem. Citou que cresceu com padrões como Rocky Balboa, Rambo, James Bond e John McClane: “Eu queria que o Crisóstomo fosse um homem admirável, que todo homem desejasse ser.”
Ele comentou também a cena em que um pescador ridiculariza Crisóstomo, ao sugerir que ele “namorava a mulher do Maricas” em uma insinuação ofensiva. No livro, essa provocação existe, mas a reação do personagem é nova no filme. Em vez de reagir com violência, Crisóstomo responde com firmeza e afeto: “Ele vai para um lugar fora dos códigos do masculino e desarma quem faz bullying.”
Sexualidade como presença, escuta e consentimento
Rezende destacou a construção cuidadosa da primeira noite entre Crisóstomo e Isaura. Descreveu a cena como totalmente tântrica. Havia ali o olhar, o cheiro, o toque sutil, o respeito e o consentimento: “A gente não aprende o que é sexo. Aprende outra coisa.”
Revelou que pretendia filmar uma cena sem beijo, centrada apenas na presença de duas pessoas em contato real. Por fim, incluiu um beijo, mas manteve a essência da proposta: mostrar um encontro baseado na escuta e no cuidado. Disse que essa sempre foi sua cena favorita, desde o roteiro até a filmagem.
O diretor afirmou que desejava que Crisóstomo tratasse Isaura com o mesmo respeito com que tratava a natureza: “Ele cheira a concha, olha a concha, escuta a concha. Isaura é parte desse todo.”
Ressaltou a presença do consentimento em pequenos gestos. Na cena com o vizinho, Isaura tem a alça do vestido puxada duas vezes e a recoloca. Já com Crisóstomo, ela mesma guia a mão dele até a alça, ao sinalizar abertura e desejo: “São códigos sutis, mas enormes. Simples, mas gigantescos.”
A educação pelo exemplo e pelo silêncio
Dagmar Ramos interveio para destacar a força simbólica dessas construções. Compartilhou que muitos comentaram ter chorado na cena do sexo e levado as experiências do filme para a terapia. Ressaltou o gesto de humildade de Crisóstomo ao deitar a cabeça sobre o corpo de Isaura.
Ingra Lyberato retomou o diálogo e destacou dois aspectos centrais: a desconstrução de Camilo em relação à homossexualidade e as cenas com as borboletas. Enfatizou o gesto de abertura do coração e o pedido de desculpas como elementos de profunda transformação.
Dagmar retomou o papel educativo da narrativa. Ressaltou a forma amorosa como Crisóstomo argumenta com Camilo, ao usar o silêncio, as metáforas e os gestos como veículos pedagógicos: “É a educação que a gente precisa. Pela escuta, pelo exemplo, pelo amor.”
Audiência surpreendente e envolvimento coletivo
Dagmar Ramos retomou a palavra para comentar o impacto imediato do encontro. Expressou surpresa diante do engajamento do público e da permanência das pessoas na sala virtual: “Nós vamos ter que marcar outra coisa. Está todo mundo surtado aqui.”
Mencionou que muitos participantes manifestaram o desejo de falar sobre diversas cenas do filme, e que o número de presentes seguia alto. “Isso é inédito. Geralmente, o pessoal entra e sai.”
Sugeriu que a equipe pense em uma nova ação para aprofundar o debate: “Quem sabe a gente organiza um encontro, um seminário?” Para Dagmar, o conteúdo apresentado por Daniel Rezende superou as expectativas: “Tudo o que você traz é muito mais do que a gente imaginava.” Reconheceu que a qualidade do filme já indicava a profundidade da obra, mas afirmou que a conversa revelou ainda mais camadas do processo criativo.
Reconhecimento e gratidão
Ao se dirigir diretamente ao diretor, expressou um agradecimento emocionado: “Receba nosso grande agradecimento. Nosso abraço. Nosso silêncio ao seu lado. E nossa alegria por você ter produzido esse filme.” Ampliou o reconhecimento à obra de Valter Hugo Mãe.
Por fim, indicou outros títulos do autor português que, em sua visão, merecem adaptação cinematográfica. Destacou ‘A desumanização’ e ‘Homens imprudentemente poéticos’, ao mencionar o lirismo dos títulos: “É a coisa mais linda deste mundo. São muitas histórias.”
As borboletas como imagem da dor e da memória
Daniel Rezende iniciou sua nova intervenção ao esclarecer que, apesar de parecer um detalhe menor, a cena das borboletas representa uma das intenções mais simbólicas do filme. Queria adaptar o momento em que Antonino se masturba, presente no livro, mas desejava apresentar esse gesto com poesia e beleza. Inspirou-se em uma breve menção a uma borboleta feita por Valter Hugo Mãe.
Criou, então, a imagem de borboletas que surgem durante o ato solitário, mas que morrem quando a lembrança da violência o invade. “Isso poderia ser magicamente poético”, afirmou. Disse ainda que algumas pessoas reagiram mal à cena: “Tem gente que não consegue assistir, porque a armadura é mais forte.”
A educação como reprodução e ruptura de sistemas
Em seguida, o diretor voltou-se para a construção do personagem Camilo. Destacou a importância do avô do menino: um homem culto, mas profundamente preconceituoso. “Essa dicotomia me interessava. Eu conheço pessoas assim. Talvez eu tenha sido assim”, disse.
Ressaltou que foi educado por uma sociedade que ensina a não escutar e a cultivar preconceitos. Disse que Camilo, no filme, representa o olhar institucionalizado. É ele quem cita a escola, a igreja, o modelo familiar. É ele quem repete o que ouviu do avô ao ver um homem com as unhas pintadas: “A humanidade vai nascer pelo cu”.
Para demonstrar a possibilidade de ruptura, Rezende criou uma cena original com o avô e um vendedor de churros: “Não falo sobre sexualidade, gênero ou orientação. Apenas indiquei que o homem pinta as unhas.”
Essa imagem bastou para disparar a violência simbólica do avô e, posteriormente, a repetição pelo neto. Mais tarde, diante de relações fundadas no respeito, Camilo começa a rever suas ideias. Gestos simples, como o preparo artesanal de uma geleia, revelam mundos distintos: “São visões de mundo completamente diferentes.”
Ancestralidade, bagagem e transformação
Na parte final da live, Rezende conectou os temas da ancestralidade e da transmissão intergeracional. Disse que, durante o processo criativo, percebeu que o filme tratava disso. “Não é sobre espiritualidade. É sobre a ancestralidade. Sobre a bagagem que recebemos.”
Usou a imagem de uma mala herdada, carregada por muitos sem nunca ser aberta. O gesto de Crisóstomo é o de acolher o menino com empatia e permitir que ele, por si, abra sua própria mala. Ao ver o que há dentro, Camilo decide o que mantém e o que pode abandonar: “Isso tem tudo a ver com o Tantra. Honrar os antepassados, mas saber que nem tudo precisa ser carregado.”
O diretor encerrou ao afirmar que desejava criar uma referência de masculinidade. Disse que se inspirou em Jiddu Krishnamurti filósofo, escritor, orador e educador indiano, um pensador que compara a repetição geracional a um disco riscado: “Por isso que eu começo o filme com o disco riscado.”
O gesto de Crisóstomo, ao romper com os padrões, abre espaço para que Camilo faça escolhas conscientes: “A gente muda o mundo quando deixa de perpetuar. Quando abre a mala e escolhe o que segue adiante.”
Reconhecimento das verdades transgeracionais
Em nova manifestação, a atriz e escritora Ingra Lyberato destacou a repercussão imediata do diálogo junto ao público que acompanhava a live. Observou que diversas pessoas expressavam, em tempo real, a percepção de que o filme operava no mesmo campo de compreensão das Constelações. Segundo ela, essa leitura surge porque a obra nasce de uma busca autêntica e de um sentimento que dialoga diretamente com a realidade humana.
Ingra afirmou que o filme aborda temas essenciais da existência, como a vida em sua complexidade, a herança transgeracional, as influências recebidas, os padrões repetidos e os processos de reflexão que emergem das dinâmicas ocultas.
Ressaltou que essas camadas não se apresentam como abstrações, mas como experiências reconhecíveis, que atravessam o espectador de forma profunda.
Para ela, é justamente por tocar esses núcleos sensíveis que a narrativa alcança o coração das pessoas, pois ali se reconhecem verdades vividas, compartilhadas e sentidas.
O outro como espelho e revelação
Ao retomar a palavra, Dagmar Ramos concluiu a participação na live ao destacar um dos momentos mais tocantes da relação entre Crisóstomo e Camilo. Mencionou a cena em que, diante da escuta sensível e da convivência com uma nova visão de mundo, Camilo pergunta: “Quem te ensinou tudo isso?” Ao que Crisóstomo responde: “Você.”
Para Dagmar, essa resposta expressa uma beleza comovente, pois revela o modo como o encontro verdadeiro entre pessoas transforma a ambos — quem escuta e quem fala.
Dagmar também destacou a força humanista da obra de Valter Hugo Mãe, ao citar duas de suas máximas presentes no filme.
A primeira subverte a célebre frase de Sartre e afirma: “O paraíso são os outros.” A segunda, presente em outra obra do autor, diz: “Os outros somos nós mesmos.”
Para ela, essas duas ideias perpassam tanto o livro quanto o filme, orienta a experiência estética e ética da narrativa. “É tudo muito lindo, muito bonito”, concluiu.
O valor de uma arte que acredita no ser humano
Ao encerrar o encontro, o diretor Daniel Rezende agradeceu pelo convite e pela escuta atenta do público ao longo de toda a conversa. Ele incentivou a divulgação do filme, disponível na Netflix, e destacou a importância do apoio do público para que obras como essa continuem a ser produzidas.
Pediu que o filme seja compartilhado em grupos de família, entre amigos e colegas de trabalho.
Ao refletir sobre a postura de muitos artistas diante do mundo, fez uma crítica à visão fatalista frequentemente presente em obras artísticas.
Disse reconhecer essa tendência, mas afirmou preferir caminhos que ofereçam uma alternativa: “Faltam obras com uma visão otimista do mundo.” Manifestou, com isso, o desejo de criar mais filmes que celebrem a dignidade humana.
Convidou ainda o público a conhecer seu perfil no Instagram (@danirez), onde compartilha vídeos com curiosidades sobre o processo de criação do filme. Reforçou o desejo de participar de novas conversas e encontros futuros: “Se a gente tiver uma outra oportunidade, vai ser um prazer.”
Um olhar de esperança para o ser humano
Na última fala do encontro, a atriz e escritora Ingra Lyberato, diretora de comunicação do CECS, expressou profunda emoção ao retomar o contato com o diretor Daniel Rezende.
Comentou que também compartilha da visão otimista sobre o ser humano apresentada por Rezende.
Para ela, há um lugar essencial dentro de cada pessoa, um espaço interno de potência e beleza, que aguarda apenas permissão para emergir.
“Esse lugar está lá, aguardando a permissão”, disse, com firmeza e ternura.
Agradeceu a generosidade de Daniel, que aceitou o convite mesmo em meio a diversos compromissos profissionais.
Finalizou ao dirigir palavras afetuosas à presidente Dagmar Ramos, ao reconhecer sua entrega e entusiasmo ao conduzir o diálogo e abrir espaço para a escuta coletiva.
O instante perfeito como síntese da escuta e da consciência
Na última manifestação da live, Dagmar Ramos encerrou o encontro ao retomar uma citação de Valter Hugo Mãe, autor que abre o seu livro ‘Constelações Familiares na medicina’, cuja obra dialoga diretamente com o espírito da conversa.
Leu o trecho em que o escritor afirma: “A felicidade está na atenção a um detalhe. Como se o restante se ausentasse para admitir a força de um instante perfeito”.
Para Dagmar, a experiência compartilhada durante a live configurou exatamente esse instante, vivido como algo mágico e pleno.
A presidente do CECS agradeceu a presença de Daniel Rezende e situou o encontro como parte da homenagem maior a Bert Hellinger.
Destacou o percurso do pensador alemão como o de alguém que ousou ser diferente, escolheu escutar e sustentou seu trabalho mesmo diante de críticas intensas.
Segundo Dagmar, Hellinger tinha clareza de que oferecia à humanidade um presente de natureza espiritual, que pode receber diferentes nomes — abordagem, método, técnica ou terapia —, embora essas classificações não deem conta de sua essência.
Para ela, trata-se de arte e consciência, uma oportunidade genuína de desenvolvimento humano, de ampliação da felicidade e de disseminação de princípios que Hellinger reuniu nas Ordens do amor.
Ressaltou que essas máximas se manifestam de modo sensível e profundo no filme ‘O Filho de Mil Homens’, dirigido por Daniel Rezende, obra que, em sua avaliação, traduz com especial delicadeza esses fundamentos. Encerrou com um agradecimento final, em tom de reconhecimento e reverência.

Na celebração dos 100 anos de Bert Hellinger, o CECS promove live com o diretor de ‘O Filho de Mil Homens’, Daniel Rezende, em diálogo com médica, psicoterapeuta, presidente do CECS, Dagmar Ramos, atriz, escritora e diretora de Comunicação da instituição, Ingra Lyberato: evento marca momento singular de convergência entre arte, clínica, filosofia e consciência social, ao reafirmar o cinema como instrumento legítimo de investigação do humano profundo

Diretor e roteirista brasileiro Daniel Rezende, com trajetória reconhecida no cinema nacional e internacional, indicado ao Oscar por ‘Cidade de Deus’ e premiado em Cannes por ‘A Árvore da Vida’ é o diretor de ‘O Filho de Mil Homens’, sucesso da Netflix: adaptação da obra do escritor português Valter Hugo Mãe com linguagem marcada pelo silêncio, pela escuta e pela presença

A médica, psicoterapeuta, especialista em medicina preventiva e social, presidente do Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas (CECS), Dagmar Ramos: “Quando cada personagem encontra o próprio lugar, o amor deixa de ser falta e passa a ser força de reconciliação”

A atriz, escritora e diretora de Comunicação do CECS, Ingra Lyberato: Sob a perspectiva sistêmica, o pai e a mãe ocupam lugar de origem, de raiz da vida, mas que há outras formas legítimas de pertencimento que emergem da força dos afetos e da busca por conexão
Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas (CECS) – Assessoria de Comunicação – Contato para informações e entrevistas: (62) 9-8271-3500 (WhatsApp)



