Evento promovido pelo Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas apresenta o Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas de Saúde (Lapacis/Unicamp). Professor Doutor Nelson Filice de Barros discute institucionalização das Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCI), critica hegemonia biomédica na definição de evidências científicas e destaca necessidade de uma lógica horizontal entre os saberes. Mediadora Roseny Flávia Martins, diretora Científica do CECS, reforça importância de compreender o cenário das práticas integrativas com profundidade crítica e contextual

O Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas (CECS), por meio do Grupo de Trabalho (GT) Científico, realizou no dia 10 de dezembro a live “Apresentação do Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas de Saúde – Lapacis Unicamp | SP”, com o PhD Nelson Filice de Barros.

O convidado especial é professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e sociólogo de referência na área da saúde coletiva. Como coordenador do Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas de Saúde (Lapacis), é uma voz influente na América Latina ao moldar a pesquisa e a compreensão social das Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCI).

Seu trabalho oferece uma perspectiva crítica das ciências sociais, essencial para o desenvolvimento de políticas públicas de saúde culturalmente sensíveis e equitativas, o que torna suas contribuições vitais para o Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas.

A mediação foi conduzida pela diretora Científica do CECS, Roseny Flávia Martins, pesquisadora PhD, autora, especialista em violência doméstica e saúde da mulher.

Mobilização e resposta institucional

Em sua saudação inicial, Roseny Flávia Martins ressaltou a importância de encontros ao vivo, como forma de interação direta com pesquisadores de referência. “Há o benefício de estar presente, poder receber o professor Nelson Filice de Barros, perguntar, conversar com ele, neste momento tão importante para as práticas integrativas e as Constelações sistêmicas”, afirmou. Também agradeceu à pesquisadora Jane Rocha, responsável pelo primeiro contato com o convidado.

A diretora científica do CECS destacou o amadurecimento do debate em torno das Constelações Familiares e Sistêmicas no Brasil. Apontou que esse processo envolve dimensões legislativas, posicionamentos de conselhos profissionais, produção científica, políticas públicas, qualificação da formação e responsabilidade ética na prática.

Roseny relembrou que, em março de 2018, a Constelação Familiar foi oficialmente incorporada à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, iniciada em 2006. Em 2020, o Projeto de Lei nº 4.887 propôs a regulamentação da atividade profissional do constelador. Em 2023, uma nota técnica do Conselho Federal de Psicologia declarou que as Constelações não constituíam uma prática de aporte psicológico ao citar ausência de evidências científicas robustas. A publicação gerou repercussão nacional, especialmente entre profissionais e instituições que observam eficácia na aplicação da metodologia.

Diante da nota técnica, surgiu o movimento Sou da Constelação, com mais de 2 mil participantes, seguido pela criação do Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas (CECS).

Em resposta ao documento do CFP, um grupo de psicólogas elaborou uma contranota técnica, em que questionou a validade científica e jurídica da publicação.

O CECS formalizou juridicamente uma refutação com base em quatro pontos principais: ausência de queixa formal que justificasse o documento, omissão da identidade dos profissionais responsáveis pela elaboração, inexistência de participação de especialistas na área das Constelações e falta de referências bibliográficas na composição desse documento.

Roseny apontou que houve extrapolação de competência técnica, ao avaliar uma prática reconhecidamente interdisciplinar.

Após a criação do CECS, diversos avanços foram registrados: o Mapa de Evidências Científicas sobre a Efetividade Clínica da Constelação Familiar e Sistêmica, publicado em dezembro de 2024 pelo Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (Cabsin); a ampliação do Comitê de Constelações Familiares e Sistêmicas do Cabsin, em agosto de 2025; e a organização do repositório científico do CECS, com mais de 650 referências bibliográficas sobre Constelações.

Roseny Flávia ainda mencionou que o Instituto Questão de Ciência (IQC) publicou diversos conteúdos críticos sobre o uso de Constelações no Sistema Único de Saúde (SUS) e no Judiciário. Chegou a propor, por meio de sugestão legislativa, o banimento da prática do serviço público. A proposta foi rejeitada por inconstitucionalidade em maio de 2025, que garantiu a continuidade voluntária da prática.

Em sua fala, Roseny Flávia Martins destacou que as Constelações continuam sendo aplicadas em vários tribunais, com índice de até 99% de conciliação em casos de cidadania.

No SUS, entre 2019 e 2022, foram registradas mais de 24 mil sessões de Constelação Familiar, conforme dados oficiais do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab). Ao encerrar a saudação, a mediadora apresentou a biografia do convidado.

As origens do interesse acadêmico pelas MTCI

O professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Dr. Nelson Filice de Barros, PhD, iniciou a apresentação com uma reflexão autobiográfica sobre o percurso intelectual que o levou ao campo das Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCI). Ainda na graduação em Ciências Sociais, no início dos anos 1990, em Campinas, deparou-se com um ambiente marcado pela forte presença de práticas esotéricas e por uma efervescência cultural que remetia aos movimentos contraculturais da década de 1960.

Durante esse período, a chegada da Universidade Internacional da Paz (Unipaz) em Campinas (SP) e a circulação de autoridades como o educador e psicólogo francês Pierre Weil provocaram inquietações intelectuais sobre a ausência de diálogo entre tais práticas e a universidade. A ausência de pesquisa acadêmica sobre esse campo mobilizou o desejo de inseri-lo no ambiente universitário.

O desafio de legitimar um campo marginalizado

A trajetória acadêmica de Dr. Nelson Filice de Barros tomou forma a partir de sua inserção no programa de mestrado em Sociologia da Saúde na Faculdade de Medicina da Unicamp. A pesquisa inicial voltou-se ao então chamado campo das medicinas alternativas. O objetivo era compreender os motivos que levavam médicas e médicos a renunciar a uma identidade social consolidada para adotar práticas que demandavam constante justificação.

“Na época, quem praticava algo fora da biomedicina era visto ou como alguém que não gostava de medicina, ou como um mau aluno que tentava sobreviver no mercado”, relatou. Essa visão estigmatizante motivou a investigação sobre o modelo biomédico e seus limites, sobretudo no que diz respeito à cultura de cuidado. A pesquisa revelou que muitos profissionais não abandonavam a medicina por incompetência ou desinteresse, mas por reconhecerem os limites técnicos da biomedicina, o que os levava a buscar formas ampliadas de cuidado.

A coexistência de lógicas terapêuticas

No processo de pesquisa, Barros entrevistou médicas e médicos que combinavam práticas díspares — como biomedicina e homeopatia, alopatia e ayurveda —, mesmo quando essas apresentavam lógicas aparentemente excludentes. Segundo ele, embora isso representasse um “absurdo lógico” na epistemologia formal, no contexto real do cuidado, práticas distintas poderiam se complementar em benefício da pessoa atendida. O foco, afirmou, era atender à vida concreta, não defender ortodoxias disciplinares.

Esse movimento levou à reflexão sobre o surgimento do conceito de medicina complementar, que se consolidou na segunda metade da década de 1990. Nelson Filice de Barros destacou a mudança de lógica do “ou isso ou aquilo” para o “isso e aquilo”, ao sinalizar uma transição epistemológica importante. Ainda assim, reconheceu que, à época, não compreendia as implicações mais amplas desse processo.

A disputa entre universalização e mercantilização

A análise crítica se aprofundou ao identificar que, dentro do movimento das MTCI, formaram-se dois grupos distintos. Um deles via essas práticas como patrimônio da humanidade ao reivindicar políticas públicas de acesso universal.

Outro grupo identificou nessas práticas uma oportunidade de mercado, tratando-as como commodities no setor da saúde — um dos mais lucrativos do mundo.

Para Barros, o deslocamento da lógica dos movimentos hippies para a lógica dos yuppies expressa o modo como as MTCI foram, gradualmente, absorvidas pelo arranjo neoliberal, sem perder sua potencialidade transformadora, mas a sofrer deslocamentos importantes.

Medicina baseada em evidências: entre critérios e reducionismos

Dr. Nelson Filice de Barros contextualizou o surgimento da Medicina Baseada em Evidências (MBE), criada em 1992, na Austrália, dentro de um programa de residência médica. O princípio fundamental da MBE consiste em realizar intervenções apenas com base em evidências comprovadas, a utilizar critérios metodológicos específicos como ensaios clínicos randomizados duplo-cegos e meta-análises.

Embora reconheça o valor técnico desses métodos, ele questiona o monopólio de uma única forma de produzir evidência. A crítica não nega a importância da validação científica, mas propõe a ampliação da noção de evidência, o que inclui outros formatos de conhecimento válidos, especialmente em campos como as MTCI.

A lógica da evidência e o controle das práticas integrativas

Na continuidade da apresentação, o professor Nelson Filice de Barros aprofundou a crítica ao modelo da Medicina Baseada em Evidências (MBE), ao apontar a forma como esse paradigma foi apropriado para estabelecer um controle normativo sobre as Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCI). Segundo ele, “a evidência exigida é sempre a evidência que o outro quer, não a que o praticante reconhece como válida; é a evidência do método dominante, não da tradição envolvida”.

Barros explicou que esse critério funciona como um mecanismo de exclusão epistêmica, que impõe condições rígidas para a validação de práticas não biomédicas. A exigência de comprovação segue moldes específicos: ensaios clínicos randomizados, estudos duplo-cegos, e meta-análises, sem considerar outras formas legítimas de conhecimento. “Não te dizem que você não pode. Apenas colocam uma condição. E essa condição é que você comprove segundo o que eu determino”, afirmou.

O conceito de complementaridade e as implicações políticas

Ao abordar a definição institucional de “complementar”, Barros destacou a distinção entre a lógica da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o uso político do termo.

Para a OMS, práticas como a medicina chinesa, originárias de sistemas culturais distintos, entram como complemento à biomedicina ao serem integradas aos sistemas nacionais. No entanto, segundo Barros, o uso da noção de “complementar” no Brasil se tornou parte de um arranjo neoliberal, voltado à mercantilização dessas práticas dentro do mercado da saúde.

Nesse contexto, surgem disputas por legitimidade e acesso. Enquanto uma parcela da população busca formas ampliadas de cuidado — que incluam, por exemplo, benzimentos ou banhos de ervas —, os serviços hospitalares, estruturados pela racionalidade biomédica, tendem a marginalizar ou subvalorizar essas práticas.

O desafio da integração horizontal das práticas de cuidado

O professor defendeu o uso de diferentes práticas em regime de horizontalidade, sem hierarquias. “O desafio de integrar está em reconhecer que o cuidado pode vir de diferentes fontes, sem subordinação entre elas”, afirmou. Esse reconhecimento exige romper com a estrutura que coloca a biomedicina como centro e as demais práticas como auxiliares ou inferiores.

A trajetória de Barros o levou a investigar a noção de medicina complementar como objeto sociológico. Ainda nos anos 1990, seu doutorado buscou compreender como práticas tidas como logicamente incompatíveis — como homeopatia e alopatia — podiam coexistir no cotidiano do cuidado. A experiência empírica mostrou que, longe de serem excludentes, essas práticas, quando aplicadas com sensibilidade clínica, podem se articular de forma funcional e ética.

A fundação do Lapacis e a institucionalização das MTCI

Em 2003, Dr. Nelson Filice de Barros ingressou como docente na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, na área de Ciências Sociais e Saúde. Já naquele momento, buscou consolidar uma linha de pesquisa voltada às MTCI. Sua formação foi marcada pela valorização da produção bibliográfica em formato de livros, com sua dissertação e tese publicadas.

Porém, logo enfrentou a exigência institucional de publicar artigos científicos em volume e periodicidade.

Esse cenário impulsionou a criação de um grupo de pesquisa estruturado. Em 2006, ano da publicação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), em 03 de maio, Barros e sua equipe refundaram o Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas em Saúde (Lapacis) como uma celebração e afirmação política e acadêmica da institucionalização do campo.

A trajetória de pesquisa e os marcos de financiamento público

A refundação do Lapacis consolidou uma perspectiva de pesquisa comprometida com a diversidade epistêmica e com a universalização do acesso às práticas integrativas. No início, o grupo contou com estudantes de iniciação científica e poucas alunas de mestrado e doutorado, voltadas a temas como homeopatia e yoga.

Em 2013, o Brasil teve o único edital público voltado exclusivamente à pesquisa em práticas integrativas, financiado com recursos do Ministério da Saúde por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O grupo ampliou seus estudos na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS), com ênfase em serviços públicos.

Barros se posiciona como parte de um coletivo que compreende as MTCI como patrimônio da espécie humana. Segundo ele, “essas práticas devem estar disponíveis a todas e todos que queiram, precisem ou tenham curiosidade. E quem tem capacidade de garantir esse acesso é o SUS”.

Ensino, extensão e democratização do conhecimento

Ainda em 2006, Dr. Nelson Filice de Barros realizou estágio pós-doutoral e, em 2008, retornou com financiamento do governo britânico para estudar o uso das práticas integrativas em pessoas com diabetes tipo 2. A partir de então, o Lapacis fortaleceu sua vertente de ensino. As reuniões semanais de pesquisa foram transformadas em disciplinas de pós-graduação abertas a alunos especiais.

O laboratório garantiu o acesso da comunidade não acadêmica à universidade, com manutenção da qualidade do debate e respeito aos diferentes níveis de formação.

A equipe adotou estratégias pedagógicas para tratar “diferentes como diferentes”, com respeito ao tempo de maturação dos alunos e promoção da inclusão aliada ao rigor intelectual.

Inserção no programa de pós-graduação e ações de formação médica

Com o amadurecimento do trabalho, o Lapacis passou a integrar formalmente o programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Unicamp, com uma linha de pesquisa reconhecida. Paralelamente, estudantes da Faculdade de Medicina organizaram ligas acadêmicas em temas como homeopatia, acupuntura, medicina integrativa e fitoterapia — experiências que ampliaram a presença das MTCI na formação médica.

Barros finalizou essa etapa de sua fala com a defesa do compromisso ético e público da universidade com o conhecimento plural. Ao valorizar epistemologias diversas e ao garantir espaços formais para práticas historicamente marginalizadas, o Lapacis afirma-se como um centro de excelência acadêmica, comprometido com a justiça epistêmica e com o fortalecimento das políticas públicas em saúde.

Consolidação do Lapacis como núcleo de ensino, pesquisa e formação crítica

Ao avançar em sua exposição, o professor Nelson Filice de Barros afirmou que, em 2013, o Lapacis era o único espaço no Brasil com uma linha de pesquisa específica sobre práticas integrativas em saúde. Naquele ano, a equipe criou uma disciplina optativa no catálogo do curso de medicina da Unicamp.

A proposta segue vigente até hoje, como uma oferta aberta a todos os estudantes da universidade, ainda sem alcançar o status de disciplina obrigatória.

O laboratório, fundado em 2006 como desdobramento direto da publicação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), completa em breve duas décadas de existência. Segundo Barros, o processo de amadurecimento institucional do Lapacis tem seguido os ciclos dos setênios, o que permite o desenvolvimento gradual de projetos, formação de quadros e definição de estratégias de atuação.

Formação para além da graduação e pós-graduação tradicionais

Entre os principais avanços do Lapacis, Barros destacou a criação de um curso de formação voltado a profissionais já atuantes no campo da saúde. A proposta não se enquadra nos moldes da pós-graduação acadêmica ou da graduação, mas visa atender pessoas que desejam aprofundar a compreensão sobre o cuidado a partir de uma lógica emancipada e plural.

O curso parte do princípio de que existe uma falha estrutural na formação de profissionais de saúde no Brasil, que permanecem ancorados em uma monocultura epistêmica.

“É uma deformação formativa. O mundo do cuidado é muito mais amplo do que a biomedicina”, afirmou. Barros apontou que, entre as 14 graduações da área da saúde, apenas o curso de farmácia contempla formalmente disciplinas obrigatórias de homeopatia e fitoterapia. As demais oferecem, quando oferecem, apenas disciplinas optativas.

Pluralismo médico, injustiça epistêmica e cultura do cuidado

A limitação curricular resulta em um déficit de saber que restringe a atuação profissional e impede o acesso a outras racionalidades médicas.

O professor Nelson Filice de Barros classificou essa realidade como um caso de injustiça epistêmica. “Os estudantes são formados com ausência de pluralismo médico e epistêmico. Um debate essencial permanece fora dos currículos”, observou.

Ao abordar a formação em pesquisa, ele destacou que nem todos os profissionais desejam se tornar pesquisadores. Para tanto, é necessário realizar o que o professor Boaventura de Sousa Santos denomina de ruptura epistemológica: questionar os fundamentos da técnica, interrogar seus limites e deslocar o olhar para além da competência operacional.

Para Barros, a pesquisa começa quando se pergunta por que uma técnica é feita de determinada maneira, a quem interessa sua estrutura e quais relações de poder sustentam sua manutenção. “É preciso ir às entranhas da técnica e formular perguntas que desafiam a própria lógica do cuidado instituído”, afirmou.

Expansão da cultura de cuidado como movimento social

Barros reiterou que nem todos os profissionais das MTCI precisam atuar como pesquisadores. No entanto, os que expandem sua forma de cuidar para além dos protocolos biomédicos integram um movimento social.

“Quem sente os limites do modelo biomédico e adota práticas diversas não está apenas sendo alternativo. Está a ampliar as formas de cuidado”, explicou.

Para o professor, a formação técnica não basta. É necessário compreender o sentido do cuidado, sua função social e suas bases culturais.

“Capacitar para 29 práticas integrativas sem debater o que é cuidado, o que é cuidado que emancipa, é o mesmo que reduzir tudo à lógica biomédica. Agulha vira comprimido. Relaxamento vira calmante”, sintetizou.

Ensino na graduação e mudança metodológica

Na graduação, a disciplina MD 378 segue aberta. Em sua última oferta, apenas duas estudantes se matricularam. A proposta atual é reformular a metodologia, priorizar vivências práticas e experiências diretas com as práticas integrativas, em vez de aulas expositivas. “Nossa aposta agora é proporcionar experiências. Quase nada de fala. Muito de prática”, explicou.

Na pós-graduação, o Lapacis mantém a linha de pesquisa vinculada ao Programa de Saúde Coletiva da Unicamp. Estudantes ingressam como alunos especiais. No primeiro ano, passam por uma etapa de equalização conceitual, com seminários teóricos e metodológicos sobre a pesquisa científica no campo das MTCI. “As pessoas chegam com vontade, mas sem muita noção da vida acadêmica, especialmente dentro de uma faculdade de medicina”, relatou.

Formação para ruptura e compromisso com a crítica

No segundo ano, os estudantes constroem seus projetos de pesquisa. O objetivo é conduzir o pesquisador à ruptura epistemológica, condição fundamental para ultrapassar a técnica e analisar as relações com a cultura, o cuidado e os sistemas de poder. “É neste ponto que se define o mestrado, o doutorado e a maturidade crítica da pesquisa”, pontuou Barros.

A atuação do Lapacis segue ancorada em três pilares: pesquisa científica, formação crítica e compromisso com a ampliação da cultura do cuidado em saúde. A proposta se afirma como um modelo de excelência em educação, pesquisa e transformação social no campo das Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas.

Formação crítica e fortalecimento de um movimento social difuso

Ao retomar sua fala, o professor Nelson Filice de Barros destacou a importância estratégica do curso de especialização promovido pelo Lapacis, voltado a profissionais da saúde que atuam com práticas integrativas.

O curso, já consolidado, busca fortalecer uma base crítica de formação capaz de sustentar um movimento social ainda difuso no Brasil.

“Temos uma política pública e temos a exigência por evidências. No entanto, ainda não temos um movimento social organizado em torno das MTCI”, afirmou.

Para Barros, o país conta com milhares de trabalhadores da saúde que atuam isolados, em redes informais ou grupos locais, mas sem articulação nacional: “Esses profissionais operam a política pública no cotidiano. Ao introduzir práticas, valores e ações que emancipam, desafiam o sistema a cuidar mais e melhor.”

Celebração e crítica: os 20 anos do Lapacis

O professor anunciou a celebração dos 20 anos do Lapacis, programada para o próximo ano, em evento de dois dias. O encontro, segundo ele, terá caráter comemorativo, mas também crítico: “Acabou de ser publicada a nova estratégia da Organização Mundial da Saúde para MTCI até 2034. Ela avança, mas também é limitada. Precisamos debater isso.”

Ao contextualizar historicamente o campo das medicinas tradicionais, Barros relembrou o estigma que marcou essas práticas durante décadas.

“Nos anos 1990, medicina tradicional era igual a medicina popular. E medicina popular era igual a crendice”, disse.

Hoje, afirmou, o reconhecimento das medicinas tradicionais ocorre em meio a um processo de revalorização histórica, impulsionado por movimentos pós-coloniais, feministas, negros, indígenas e LGBTQIA+.

Invisibilidade das sabedorias indígenas e quilombolas

Barros criticou a exclusão das matrizes indígenas e quilombolas dos debates sobre MTCI no Brasil.

“Temos 300 etnias indígenas e não sabemos falar uma palavra de suas línguas. Não conhecemos seus mitos criadores, formas de cuidado, epistemologias”, observou. O mesmo se aplica aos povos quilombolas, historicamente silenciados.

Segundo o professor, as práticas integrativas institucionalizadas até hoje no Brasil têm origem, em sua maioria, em tradições externas. “O que fazemos com o saber ancestral brasileiro? Como reintegrar esse patrimônio na política pública?”, questionou.

A ciência como ruptura na continuidade da experiência humana

O professor argumentou que a ciência moderna promoveu uma cisão com a ancestralidade humana. “Temos 200 mil anos de espécie e 500 anos de ciência. A ciência é herdeira de toda essa experiência, mas age como se tivesse inventado o mundo”, alertou.

Barros explicou que esse processo apagou a história de transmissão oral de saberes: “A maioria de nós não conhece a quinta geração da própria linhagem familiar. Sem o sonho das gerações passadas, como sonhar as futuras?”

Para ele, a ciência apropriou-se de saberes ancestrais ao renomeá-los: transformou alquimia em química, astrologia em astronomia, rituais de cura em farmacologia. O mais eficaz da ciência foi interromper a consciência de continuidade histórica.

Essencialismo estratégico e o desafio da pluralidade

O professor introduziu o conceito de essencialismo estratégico como ferramenta política para reunir práticas distintas sob o nome de práticas integrativas.

“O que as 29 práticas da PNPIC têm em comum? Essencialmente, não são biomédicas. Por isso se agrupam. Mas, na essência, são profundamente diferentes. Vêm de tradições, culturas e tempos distintos”, explicou.

Barros alertou para o fato de que muitas práticas ainda permanecem fora da institucionalização. O desafio atual não se resume à ampliação da política pública, mas ao reconhecimento do caráter plural da própria sociedade brasileira.

Pluriepistemicidade e o estado plurinacional

Ao concluir a exposição, Barros aprofundou a reflexão sobre os marcos estruturais do conhecimento e do cuidado.

“Quando debatemos MTCI no SUS, discutimos pluriepistemicidade. Isso significa reconhecer mais de uma forma de produzir conhecimento em saúde dentro do sistema público”, pontuou. No entanto, argumentou, esse debate precisa avançar.

Segundo ele, o Brasil exige a construção de uma noção de estado plurinacional, em que convivam e se afirmem a matriz indígena, a matriz africana, a matriz europeia e a matriz caipira — esta última entendida como síntese cultural de todas as demais. “Não dá para achar que somos uma coisa só. Somos muitos. E precisamos construir políticas a partir dessas diferenças”, pontuou.

Convite à celebração e continuidade do diálogo

O professor Nelson Filice de Barros convidou para a celebração dos 20 anos do Lapacis, celebração que está sendo reagendada. A nova data será anunciada em breve.

Ele encerrou com um convite: “Sintam-se convidadas e convidados a compor esse movimento. O Lapacis é lugar de pesquisa, mas também de construção coletiva de um outro modo de cuidar, de ensinar e de viver.”

A importância da visão ampliada sobre as MTCI no Brasil

A mediadora Roseny Flávia Martins fez uma intervenção ao final da exposição do professor Dr. Nelson Filice de Barros, ao reconhecer a relevância da abordagem histórica, crítica e ampliada apresentada. Para ela, o panorama exposto ajuda a compreender com maior profundidade o cenário atual das Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCI) no Brasil.

“Isso é importantíssimo para que as pessoas compreendam onde estão e para onde desejam caminhar. Nós, que atuamos no Centro de Excelência em Constelações Sistêmica, muitas vezes colocamos uma lupa sobre apenas uma das 29 práticas reconhecidas pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC)”, afirmou.

Roseny destacou que, diante desse recorte especializado, a reflexão ampla e contextual promovida pela fala do professor contribui decisivamente para revelar o que realmente está em jogo no campo das práticas integrativas no país: “Essa visão nos permite entender com mais clareza o que acontece no Brasil neste momento e o que de fato se faz necessário.”

A mediadora também ressaltou a diversidade das abordagens contempladas pela política nacional: “Como foi dito, as 29 práticas são profundamente distintas entre si, muitas vindas de outras culturas e tradições, enquanto seguimos sem reconhecer, apropriadamente, as práticas originárias do próprio território brasileiro.”

Curso de pós-graduação do Lapacis tem inscrições abertas

Durante o encerramento da roda de conversa, o convidado especial compartilhou uma informação relevante para profissionais interessados nas práticas integrativas. Segundo ele, o curso de pós-graduação vinculado ao Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas de Saúde (Lapacis) está com inscrições abertas. A notícia foi recebida com entusiasmo pelos participantes.

Encerramento reforça compromisso com a expansão do cuidado e da reflexão crítica

Ao final do encontro promovido pelo Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas (CECS), a mediadora, diretora Científica da instituição, Roseny Flávia Martins, agradeceu a presença de todos os participantes e celebrou o momento de profunda troca intelectual e humana.

“Gostaria de agradecer a todos por este momento de intensa reflexão e aprendizado. Que essa conversa amplie os nossos horizontes, para que possamos compreender, de forma mais abrangente, os contextos nos quais estamos inseridos”, afirmou.

A diretora destacou ainda a importância da escuta qualificada e do compartilhamento de experiências como motores de transformação das práticas de cuidado.

Ao agradecer ao professor Dr. Nelson Filice de Barros pela generosa participação, Roseny encerrou a transmissão. “Seguimos nesse caminho tão maravilhoso”, concluiu.

Fotos: CECS

A diretora Científica do CECS, Roseny Flávia Martins, pesquisadora PhD e autora ressaltou a importância da reflexão ampliada, sobretudo para profissionais das Constelações Familiares Sistêmicas: “Essa visão nos permite entender com mais clareza o que acontece no Brasil neste momento e o que de fato se faz necessário”

Centro de Excelência em Constelações Sistêmicas (CECS) – Assessoria de Comunicação – Contato para informações e entrevistas: (62) 9-8271-3500 (WhatsApp)

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